A temática da igualdade de gênero e raça vem conquistando visibilidade crescente na mídia e perante a opinião pública. A amplificação deste debate pode ser creditada à emergência de movimentos de luta cada vez mais fortes da sociedade civil pela superação de discriminações estruturais, historicamente construídas. Mulheres e pessoas negras, dentre outros grupos subalternizados, enfrentam embates diários e frequentes para usufruírem dos direitos legalmente assegurados na Constituição Brasileira. Atualmente, há diversas iniciativas lideradas por consultorias, instituições internacionais e nacionais e coalisões empresariais dedicadas à promoção da diversidade – de gênero, raça e todas as diversidades – que proporcionam metodologias, ferramentas, guias e conteúdos voltados a organizações.

O que impressiona bastante, no entanto, é que mesmo diante da temática ter virado “mainstream”, evidências mostram a distância entre o discurso sobre a importância do tema e as práticas das organizações. É o que apontam pesquisas como a da consultoria internacional Kantar, de 2020, junto a 18 mil respondentes de catorze países, dentre eles o Brasil. O País é identificado com o maior nível de discriminação no ambiente de trabalho, ao lado de México e Cingapura. Dos entrevistados, 34% afirmam ter enfrentado obstáculos em suas carreiras relacionados ao gênero, idade, etnia, orientação sexual, etc. Alguns recortes do estudo “Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil e suas Ações Afirmativas”, do Instituto Ethos, mostram que, mantendo o ritmo atual, só alcançaremos a equidade de gênero no ambiente de trabalho em 80 anos e a racial em 150.

Para contribuir com a mudança dessa realidade, é que desenvolvi, em parceria com a cientista política e jornalista Juliana Silva, especialista em cultura afro-brasileira e comunicação digital, o curso Igualdade de Gênero e Raça nas Organizações: da ideia ao engajamento. Para a produção do curso, realizamos uma sondagem qualitativa junto a profissionais que gerenciam pessoas em organizações públicas, privadas e do terceiro setor que demonstra que a temática ainda é uma realidade distante na prática.

A maioria expressiva de participantes da sondagem (89%) acredita que um ambiente organizacional com maior diversidade, em que a promoção da igualdade de gênero e raça seja estimulada, possa melhorar o desempenho de suas organizações. Dentre os participantes (52%) indicou necessitar de mais conhecimentos sobre gênero e raça para o desenvolvimento de seu trabalho. No entanto, uma parcela importante (78%) reconhece como “inexistente” ou “baixa” a adesão na prática de suas organizações, o que representa uma oportunidade de trabalho em prol da maior diversidade por parte desses gestores. Há um desconhecimento da maioria dos participantes (58%) sobre a diversidade em suas organizações no que se refere a gênero, raça e orientação sexual. Esse desconhecimento pode ser ocasionado por alguns fatores. Um deles é que as pessoas participantes da sondagem não estejam engajadas em ações vinculadas à promoção da diversidade em suas organizações. Outro fator pode ser que a falta de conhecimento da maior parte das pessoas respondentes da sondagem indique, de fato, uma limitada difusão de informações sobre diversidade nas suas organizações.

Entre os participantes da sondagem, observou-se um grande interesse por temas vinculados a práticas (78%) e políticas (67%) de gênero e raça. Essa prioridade parece indicar que as pessoas estão ávidas não só por obter conhecimentos conceituais para embasar o seu trabalho, mas também sobre como tirar a temática do “papel” e traduzi-la em práticas e políticas sustentáveis nas suas organizações.

É com base em todas essas evidências que vamos trabalhar, ao longo do curso que se inicia no próximo dia 27 de abril, os fundamentos básicos, marcos legais e experiências exitosas para a atuação de gestoras/es. Nossa ênfase estará focada em práticas, instrumentos e ações que podem ser adotadas para implementar e aprimorar práticas que traduzam a diversidade de gênero e raça no ambiente de trabalho e que promovam resultados positivos para a organização e para a sociedade.

Temos forte convicção de que as organizações públicas e privadas podem e devem contribuir de forma decisiva para a mudança dessa realidade. Já está mais do que comprovado que um ambiente de trabalho diverso e inclusivo promove maior produtividade e inovação contribuindo para melhores resultados das organizações. O que falta agora é que as organizações elevem o nível de consciência de sua responsabilidade social e que o discurso se aproxime verdadeiramente da prática.

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